domingo, 16 de outubro de 2016

Suicídio – a vida sem sentido

Com o passar do tempo a ideia de suicídio fica cada vez mais forte na minha cabeça. Isso não é algo recente. A primeira vez que pensei nisto foi aos 17 anos. Não só pensei como foi a minha primeira tentativa. Foi também a vez que cheguei mais perto de ser bem sucedido. Um cinto estilo cordão foi o suficiente para que eu amarrasse uma ponta à janela e o meu pescoço na outra. Não havia altura suficiente, mas isso não impede que alguém se mate por um "reflexo de vida", como pode comprovar muitas fotos de pessoas que se mataram com o joelho dobrado. O que me impediu naquela vez foi que eu quase desmaiei com falta de ar e fiquei com medo. Eu também não queria me matar naquele local que era o canto de uma pessoa que eu gostava bastante e que, sei lá porque, era o único lugar que tinha tranca na casa em que eu podia ficar isolado.

A segunda tentativa, foi bem mais elaborada e arquitetada. Não me lembro exatamente a idade, talvez entre 21 e 23 anos. Não sei se eu estava na faculdade ou se foi no primeiro ano após formado. Achei um barbante grosso que pertencia ao meu pai desde quando eu era criança e pensei “é grosso o suficiente, mas para garantir vamos trançar 3 destas entre si”. Peguei uma escada que não tinha um pé, então, era muito fácil cair dela. Amarrei minhas mãos com bastante fita adesiva para evitar que eu segurasse em algum lugar se eu me arrependesse ou ficasse com medo como da primeira vez. Tudo estava pronto e eu decidido. Amarrei a cordinha na madeira do alpendre, subi na escada com as mãos amarradas na frente, coloquei a outra ponta da cordinha no pescoço e fiquei lá pensando na vida que eu não tinha, no fracasso que eu era e em tudo o que eu queria ter e não conseguia. Enfim, pensava coisas que qualquer pessoa com depressão pensaria. E no meio destes pensamentos, perdi o equilíbrio na escada e caí. Foi muito rápido. Senti que estava feito. No entanto aquele barbante que eu conhecia desde criança estava podre e não me aguentou. E eu caí no chão e fiquei lá deitado igual a um idiota, pensando que “nem para me matar eu sirvo”. Mas foi o suficiente para entender que na próxima vez, tenho que usar uma corda de verdade, nova, comprada a pouco tempo e que agüente bastante peso. Neste dias, minha irmã ouviu o barulho e um tempo depois foi lá ver o que tinha acontecido. Mas, ainda bem, ela era muito tapada (tipo aquela venda usada por cavalos para só enxergar para frente e não ao redor) e não conseguiu ligar os objetos da cena ao que estava acontecendo. Então, nunca ninguém me pentelhou por isso. Acho que nunca nem desconfiaram.

O meu problema é que eu tento fazer a coisa ficar menos grave para outras pessoas. Então, coisas como quem vai me encontrar, o local - para que lugares que onde existiu um mínimo de felicidade não fique marcado como o local em que matei – e a possível tristeza das pessoas que eu gosto me dão uma impedida de fazer as coisas sem pensar.   

Nesta semana fiquei muito mal, pior do que nas outras. E isso está aumentando gradativamente. Sexta-feira, eu estava bem ruim. Se tivesse uma corda e não tivesse tanta gente, talvez seria o dia. É por isso que me esforço em não ter uma corda. Mas estou pensando seriamente em comprar uma, aqui na cidade ou pela internet. Ainda não tenho coragem, mas um dia acho que vou ter.

As pessoas ficam felizes por coisas que eu não entendo.

Não tenho mais prazer em fazer muitas coisas e fica cada vez mais difícil fingir em casa para as crianças que eu estou normal. Os outros acham que o meu normal é ser esquisito, quando na verdade foram eles que me obrigaram a isto através de imposições; demonstrações de “eu mando e você obedece”; indiferenças – se eu estou bem, tanto faz se o outro está bem ou mal; falsidades – falar mal de todo mundo e saber que quem faz isso fala mal de você também, o que me leva a não confiar nesta pessoa; mentiras – não sei no que e em quem acreditar na vida; só ter responsabilidades, só trabalhar e não saber (e não ter prazer em) “curtir” a vida como a maioria; saber que as pessoas exigem de você o que elas não tiveram condições de alcançar nem pra elas; só ser lembrado quando tudo dá errado e nunca quando as coisas dão certo; falta de relacionamentos – namorada ou amigos, sempre fui induzido a pensar que não se pode confiar em ninguém e a vida confirmou isto porque as pessoas se precisarem, passam um trator em cima de você; dinheiro – tenho pouco, sei que tenho mais do que muita gente, mas minha cabeça acha que a vida existe para isso (ganhar dinheiro) e nunca entendeu porque as pessoas acabam com suas vidas (inclusive eu) por um pedaço de papel ou números virtuais no banco; não tenho prazer em gastar dinheiro, pelo contrário me sinto mal porque acho que vai me fazer falta no futuro como já aconteceu outras vezes; a busca pelo perfeccionismo que me impede de conseguir qualquer coisa porque eu sei que nada é perfeito, mas mesmo assim me sinto frustrado quando as coisas não saem como deveriam; nunca estar à altura do que as pessoas esperam; não ter ninguém com quem realmente contar na vida sem ser julgado.  


Enfim, não vejo e nunca vi sentido na vida. E não sei o que estou fazendo aqui.     

Eduardo Ax

Um comentário:

  1. Eu não me mataria na minha casa. Minha família não conseguira mais morar ali, e provavelmente teriam muita dificuldade em vender o imóvel. Quem quer comprar um apartamento onde alguém se matou? Tbm penso no trauma de quem iria encontrar o corpo, no trauma familiar. Sei lá...
    Minha vida tá bem longe de ser o que eu gostaria, mas acho que me matar não é uma opção plausível

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