Com
o passar do tempo a ideia de suicídio fica cada vez mais forte na minha cabeça.
Isso não é algo recente. A primeira vez que pensei nisto foi aos 17 anos. Não
só pensei como foi a minha primeira tentativa. Foi também a vez que cheguei
mais perto de ser bem sucedido. Um cinto estilo cordão foi o suficiente para
que eu amarrasse uma ponta à janela e o meu pescoço na outra. Não havia altura
suficiente, mas isso não impede que alguém se mate por um "reflexo de vida", como
pode comprovar muitas fotos de pessoas que se mataram com o joelho dobrado. O
que me impediu naquela vez foi que eu quase desmaiei com falta de ar e fiquei
com medo. Eu também não queria me matar naquele local que era o canto de uma
pessoa que eu gostava bastante e que, sei lá porque, era o único lugar que
tinha tranca na casa em que eu podia ficar isolado.
A
segunda tentativa, foi bem mais elaborada e arquitetada. Não me lembro
exatamente a idade, talvez entre 21 e 23 anos. Não sei se eu estava na faculdade
ou se foi no primeiro ano após formado. Achei um barbante grosso que pertencia
ao meu pai desde quando eu era criança e pensei “é grosso o suficiente, mas
para garantir vamos trançar 3 destas entre si”. Peguei uma escada que não tinha
um pé, então, era muito fácil cair dela. Amarrei minhas mãos com bastante fita
adesiva para evitar que eu segurasse em algum lugar se eu me arrependesse ou
ficasse com medo como da primeira vez. Tudo estava pronto e eu decidido.
Amarrei a cordinha na madeira do alpendre, subi na escada com as mãos amarradas
na frente, coloquei a outra ponta da cordinha no pescoço e fiquei lá pensando
na vida que eu não tinha, no fracasso que eu era e em tudo o que eu queria ter
e não conseguia. Enfim, pensava coisas que qualquer pessoa com depressão
pensaria. E no meio destes pensamentos, perdi o equilíbrio na escada e caí. Foi
muito rápido. Senti que estava feito. No entanto aquele barbante que eu conhecia
desde criança estava podre e não me aguentou. E eu caí no chão e fiquei
lá deitado igual a um idiota, pensando que “nem para me matar eu sirvo”. Mas foi
o suficiente para entender que na próxima vez, tenho que usar uma corda de
verdade, nova, comprada a pouco tempo e que agüente bastante peso. Neste dias,
minha irmã ouviu o barulho e um tempo depois foi lá ver o que tinha acontecido.
Mas, ainda bem, ela era muito tapada (tipo aquela venda usada por cavalos para
só enxergar para frente e não ao redor) e não conseguiu ligar os objetos da
cena ao que estava acontecendo. Então, nunca ninguém me pentelhou por isso. Acho
que nunca nem desconfiaram.
O
meu problema é que eu tento fazer a coisa ficar menos grave para outras
pessoas. Então, coisas como quem vai me encontrar, o local - para que lugares
que onde existiu um mínimo de felicidade não fique marcado como o local em que
matei – e a possível tristeza das pessoas que eu gosto me dão uma impedida de
fazer as coisas sem pensar.
Nesta
semana fiquei muito mal, pior do que nas outras. E isso está aumentando
gradativamente. Sexta-feira, eu estava bem ruim. Se tivesse uma corda e não
tivesse tanta gente, talvez seria o dia. É por isso que me esforço em não ter
uma corda. Mas estou pensando seriamente em comprar uma, aqui na cidade ou pela
internet. Ainda não tenho coragem, mas um dia acho que vou ter.
As
pessoas ficam felizes por coisas que eu não entendo.
Não
tenho mais prazer em fazer muitas coisas e fica cada vez mais difícil fingir em
casa para as crianças que eu estou normal. Os outros acham que o meu normal
é ser esquisito, quando na verdade foram eles que me obrigaram a isto através de
imposições; demonstrações de “eu mando e você obedece”; indiferenças – se eu
estou bem, tanto faz se o outro está bem ou mal; falsidades – falar mal de todo mundo
e saber que quem faz isso fala mal de você também, o que me leva a não confiar
nesta pessoa; mentiras – não sei no que e em quem acreditar na vida; só ter responsabilidades,
só trabalhar e não saber (e não ter prazer em) “curtir” a vida como a maioria; saber
que as pessoas exigem de você o que elas não tiveram condições de alcançar nem
pra elas; só ser lembrado quando tudo dá errado e nunca quando as coisas dão
certo; falta de relacionamentos – namorada ou amigos, sempre fui induzido a
pensar que não se pode confiar em ninguém e a vida confirmou isto porque as
pessoas se precisarem, passam um trator em cima de você; dinheiro – tenho pouco,
sei que tenho mais do que muita gente, mas minha cabeça acha que a vida existe para
isso (ganhar dinheiro) e nunca entendeu porque as pessoas acabam com suas vidas
(inclusive eu) por um pedaço de papel ou números virtuais no banco; não tenho
prazer em gastar dinheiro, pelo contrário me sinto mal porque acho que vai me
fazer falta no futuro como já aconteceu outras vezes; a busca pelo perfeccionismo
que me impede de conseguir qualquer coisa porque eu sei que nada é perfeito,
mas mesmo assim me sinto frustrado quando as coisas não saem como deveriam; nunca
estar à altura do que as pessoas esperam; não ter ninguém com quem realmente contar
na vida sem ser julgado.
Enfim, não vejo e nunca vi sentido na vida. E não sei o que estou fazendo aqui.
Eduardo
Ax